segunda-feira, 22 de abril de 2013

a reconstrução do pássaro do frio



A RECONSTRUÇÃO DO PÁSSARO DO FRIO

Alberto Bresciani

Sentou-se diante do computador e esperou que as palavras deslizassem suave e continuamente de sua cabeça para seus braços, para as mãos, os dedos, que viessem com a inevitabilidade do fluxo sanguíneo, brotassem facilmente. Como respirar (ainda que não quisesse respirar). Era seu trabalho.
Ia da tela ao teclado. Algum texto. Um poema extremo, revelando as feridas maquiadas, uma crônica dessas que confessam, conto ou romance. Qualquer coisa que arrastasse para longe a história mal contada que era a sua. A tela e o teclado eram a interlocução possível.  Eram a única interlocução. Acostumou-se a falar apenas o necessário. Muitas vezes se esquecia da própria voz.
As palavras também constroem mundos para quem escreve. É como desenhar um cenário pouco a pouco e nele inserir-se com a virtualidade de um Thron ou como Alice no país dos desastres. Escrever abafava seu vazio.
Primeiro de janeiro: a possibilidade de recomeçar. Uma intuição nele persistia sem a coragem que lhe desse matéria, como quase cair e ceder no último instante. Um novo ano não tem muitas utilidades. Marcador do tempo cada vez menor, ameaça para tudo o que não se cumpriu. Entretanto, possibilidades esperam dentro de um livro como incompreensíveis partículas de pó no raio de sol intruso. A dúvida rondava.
Sim, as palavras deveriam descer como o vento gelado que cortava a cidade na noite anterior. Cruelmente até. Aceitaria. O vento ainda ameaçava aquela manhã, esse vento que dava voltas ao mundo. Talvez houvesse passado sussurrante pelos corpos do hemisfério quente que abandonou (que o abandonou desde o início). O frio o aprisionou. O acidente fatal. Ela era sua crença plana. Em tudo. Levou seu tudo. Não fazia mais sentido.
Lembrou-se da véspera, dos fogos que morriam abaixo de zero, dos gritos, os movimentos de dança, encanto, cumprimentos elétricos,  encontros. Por nenhuma razão, quando a contagem regressiva progredia, vieram-lhe à mente as promessas de felicidade da avó encerrada pelo tempo no capítulo findo. Ela se chamava Maria. Então, por fração de segundo, a casa inteira daquela avó o abraçou e o tomou de volta. Um presságio se cumpriu e evaporou. O segundo se foi. Assim como se desfez a chance de sua vida. A multidão ainda se comprimia. Homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, pequenas e grandes famílias, todos se agarrando à chance de sobreviver, voltar minutos contra o destino inexorável.
Saíra esquecido da data e sua aparência destoava. Encaravam-no. Talvez não compreendessem. A ele que havia renunciado fazia tanto ao engano dos espelhos, estrangeiro tão estrangeiro de si mesmo. Acostumou-se a ver de dentro da armadura seca que era o corpo. O copo, só, único, ali, de ontem, já vezes bebido e bebido.
O computador ligado. Nas postagens da rede social, as fotos. Guardavam as personagens quentes muitos anos depois. Continuariam assim, escondendo a relatividade de tudo. Lá do outro lado. Toda aquela gente o tempo todo.
A temperatura externa não congelava as palavras. Sabia. Só quase paralisava o pássaro assustado sobre a neve no jardim do edifício em frente. Plantas sem esperança e em geometria organizada. As palavras não apareciam. Foi buscar um café. Era outro primeiro de janeiro e era longe. O silêncio era o texto inteiro. Era muito. Dizia tudo e tanto. Impossível escrevê-lo.
Mudou-se quando já não mais suportava lembrar-se. Subira aquelas suas escadas tantas vezes. No início, sentia-se no cenário de algum dos filmes que assistira na adolescência. Foi seu primeiro apartamento deste lado. Foi o único.  Tudo se desgasta. Até o gosto, pensou.
Voltou com o café. Colocou-o sobre a mesa. O pássaro insistia em sua busca por alimentos. Mesmo assim a vida seguia. Os pássaros, lá onde fora ele, tinham destino mais fácil. Aqui, o céu extremamente azul enganava os sentidos àquela hora do dia. Os sentidos são presa fácil. A tela ainda o desafiava.
Desviou a visão para fora. O filhinho da vizinha ruiva estava na calçada, fixando o pássaro. Moravam os dois, ruiva e filho, no andar inferior. Passava por eles. Não conversava. Não tinha o quê. Levantou-se, procurou por ela. Não a viu. Veio-lhe o pânico. Atravessar ruas quase inofensivas podia ser fatal. O acidente diante de casa. O brilho dos cabelos dela no vermelho sobre o asfalto, as luzes, as vozes, o seu grito, fim, o dela e o seu. Abriu a janela e o frio quase o cegou. Procurou ainda uma vez. O medo. Sem pensar, correu para a porta. Esbarrou na mesa e o café caiu sobre ele. Desceu em disparada. Saltava degraus. Tropeçou. Mergulho. Foi para a portaria. Pouco via. Cego. O menino só. A rua. Quase não teve como deter-se ao chegar ao térreo. Disse na língua do lugar: "o menino sozinho!" Foi estacionar na calçada.
A vizinha ruiva, encostada ao portal, ria. Percebeu o susto e o engano. Chamou o menino. A travessia foi tranquila. Ele, tentando recobrar o ritmo da respiração, não sabia o que fazer. Percebeu suas calças sujas de café. Ela ainda ria.  Aos poucos, a face feminina e suave se deteve. Os olhos verdes refletiram os dele. Havia um estranho universo pulsando naquelas órbitas de paz e folhas. "Toma um café?", ela perguntou. Ele assentiu, subindo lentamente. Veio-lhe o impulso de libertar suas asas, estendê-las. Ela tocou em seu braço.



Imagem: Andy's Northern Ontario Wildflowers Birds of the Burwash Area


23 comentários:

  1. Alberto, gostei muito do texto. Sua habilidade me colocou na pelo do escritor, sentir a angústia pelo menino "só" atravessando a rua, o café na perna e o toque da ruiva em meu braço! (rs) Deliciosa leitura! Abraço,
    Ney Pimenta

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    1. Caríssimo Ney, obrigado pela gentileza. Um abraço!

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  2. Gostei demais, Alberto. Uma leitura daquelas que nos deixa em suspense, onde tudo pode acontecer, como também pode não acontecer nada, assim como o silêncio e a palavra, esse binômio que constrói, mas também pode ser só uma hipótese no redemoinho das incertezas. Digo-lhe,com certeza: o caminho é por aí. Você tem a pegada. Parabéns e um abraço.

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    1. Basilina caríssima, sua amizade é valiosa e sua generosidade faz bem à alma. Muito obrigado.

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  3. Dr. Alberto, encantam-me a solidão de seus personagens e a busca por sentido em uma vida rápida, ainda que longa. Identificação? Por certo! A angústia, as palavras não ditas, o vazio... Simplesmente fantástico!

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  4. Que título maravilhoso! A narrativa é um primor. Tensa, dramática, poética. Amei.

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  5. Querido Alberto,

    Estou emocionada.

    Com admiração,
    Cláudia.

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    1. Cláudia, emocionar quem entende de emoções e de palavras é uma responsabilidade e tanto! Obrigado!

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  6. Adorei a descrição desses instantes congelados no tempo. Parabéns!

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    1. Saudades, Vania! Obrigado pela visita e pelo comentário!

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  7. Divino este texto Alberto. Conheço-te tão pouco, quase que tão nada mesmo desde Maputo onde tive prazer de receber seu livro INCOMPLETO MOVIMENTO. Mas este texto encantou-me. Sublime amigo...

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    1. Eduardo, que generosidade e que hona receber a sua visita. Um forte abraço deste lado do mundo!

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  8. Encantada e emocionada com o texto, afinal "os sentidos são presa fácil".
    Parabéns sempre!
    Amanda

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  9. Dalila Teles Veras26 de abril de 2013 15:01

    Final machadiano, caro Alberto! Parabéns. O poeta/contista vai, assim, se firmando em ambos os gêneros. Abraço

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    1. Dalila, grande escritora, fico muito honrado como seu comentário e com a sua visita. Um imenso abraço, Alberto

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  10. surpreendente e delicado. cheio de imagens singelas como "incompreensíveis partículas de pó no raio de sol intruso"

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  11. Alberto, tentarei ser breve, já sabe que não consigo essa proeza, e ainda receberá minhas típicas mensagens, ô mulher bicho perdido nas linhas e ondas rs... Saciada, puro enquanto, pela exposição de mais um escrito seu. Os “enigmas” criados é linguagem que não pode ser decifrada, e você sabe de minha admiração por seus “enigmas”, sou devorada por todos, essa é a escolha feita quando meus olhos sentem o toque e movimento de seus desenhos. Bem, até os enigmas que criamos arrancam nossos pedaços, acho melhor dizer, são esses que certamente arrancam cada pedaço de carne rs. O pássaro do frio, o estrangeiro de si mesmo, abandonar e ser abandonado por um sopro quente. Teimosia de um sol intruso, a desgraça ou salvação da lembrança de um abraço, somente um segundo. Se eu (leitora aqui já devorada) pudesse segurá-lo ou roubá-lo, mataria por esse “segundo”, por esse segundo tão miserável. Esse não pertencimento, confusão de uma terra estranha e impiedoso aprisionamento. O costume e o silêncio metamorfoseando-se em presa fácil... E essa armadura, muralha a defender “meu” corpo seco ou ferro a aprisionar as “minhas” asas grandiosas? Não sei, e nem importa. Sem a armadura, senti “minha” pele, um toque desse “estranho universo de paz e folhas”. Asas estão a se debater na minha janela de vidro com vista para o Mar, querendo “pulsar” e “mergulhar”.
    Caro e querido Alberto, não são análises , longe de mim, não sei fazer nenhuma, nem quero rs o que quero é sentir.... Homem/Mulher que sentiu ser bicho/pássaro. Podia ter postado somente “Homem/Mulher que sentiu ser bicho/pássaro”, mas seria tão sem graça (para essa leitora rs), e não foi um querer, foi uma humilde e honesta necessidade de compartilhar as transgressões que esses seus “enigmas” proporcionam no percurso de meus olhos tocando suas linhas. Transgressão de estar nas suas linhas. Devorada e devorando. Equivocada ou não? Nem importa. Só interessa que seus “enigmas” colocam essa leitora num mar de grandes ondas. O toque. E as asas desafiando... tantas e tantas impossibilidades de serem ditas, uma das falas/silêncios de “A RECONSTRUÇÃO DO PÁSSARO DO FRIO”.
    Perdão meu amigo, eu desembesto, é um desafio, estou trabalhando para um dia conseguir fazer uma síntese. Raramente comento, desejo, mas acabo enviando um e-mail... quando não resisto olha só o que acontece kkkkkk.
    Saciada, puro enquanto, por favor mais “enigmas”! Suas linhas devoram, transportam, tocam, e hoje senti “minhas” essas asas. Agora preciso abrir a janela de vidro. O impulso de libertação do texto do autor foi para mim metamorfose e comando. Grata. E por favor, mais “enigmas”! Perco a hora com sua escrita... E também a noção de que não se posta um comentário desse tamanho rs Mas paciência, já tenho a síntese de dever de casa rs Sem noção, bem, vim com um tempero desse rotulado “sem noção” rs. Prazer com suas novas publicações! Beijos para você e todos os seus!

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  12. Tatiana, se eu acredito em você, querida amiga poeta, ficarei "me achando". Um beijo e obrigado!

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    1. kkkkkkkkk Querido amigo... A voz na canção é bela, e acho um argumento justo por demais " Você sabe explicar, você sabe entender, tudo bem, você está, você é, você faz, você quer, você tem, você diz a verdade, e a verdade é seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir (...)" Dei muitas risadas, pois então, "não me venha falar na malícia de toda mulher", mas veja só, eu desejei ler mais e mais de seus enigmas após "Incompleto Movimento", como já dito a você, essa sua amiga poeta, muito atrevida tomou a decisão "Ou Alberto Bresciani escreve o prefácio, ou meu livro será publicado sem prefácio. É o poeta de INCOMPLETO MOVIMENTO, se ele não aceitar, fazer o que... Necessidade mesmo, é das linhas daquela impiedosa devoradora, daquela flor carnívora. Se ele enviar um não, pronto, sem acordo, não vai ter prefácio" kkkk E como é especial ter um poeta que admiro, as únicas linhas que poderiam abrir os trabalhos de meu Luto Doce, e a Sarau que fez o convite! Entrei em contato e tive o prazer de conhecê-lo depois do SIM a abrir meus trabalhos. ISSO É FATO! POIS PODE "FICAR SE ACHANDO MESMO"! E "FIQUE SE ACHANDO COM FORÇA!" ENIGMAS ENIGMAS ENIGMAS, ASSIM DEVE SER... DEVORADA, PURO ENQUANTO, SACIADA... Beijos

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