quarta-feira, 15 de agosto de 2012

a morta é viva

"Na volta à vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento da existência moral ou espiritual e o da existência física. Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar todas as lembranças eloqüentes do abismo do outro mundo. E qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do túmulo?" In, O Poço e o Pêndulo - Edgar Allan Poe



- Sente o cheiro, Senhora! Fresquinho!

- Que cheiro?

- Alho-poró, Senhora. Fresquinho!

Foi assim que perdeu o olfato ou descobriu tê-lo perdido.

Desgraçadamente, ela que mal se lembrava do cheiro do filho recém-nascido, agora ansiava por um cheiro qualquer.

Esgotados todos os tratamentos, resolveu buscar a cura para o mal que lhe afligia por conta própria, e de maneira grotesca, convém salientar. Empregou-se numa espelunca imunda, onde, certamente, os piores odores se concentravam. Incumbida da faxina do lugar, passava os dias retirando das latrinas entupidas, urina e fezes.

Não aguentou, pois ainda que lhe faltasse olfato, visão e tato continuavam intactos.

De volta à vida costumeira, e sem qualquer ocupação que lhe preenchesse os dias, acabou por adoecer. Davam-lhe para beber caldos fortificantes, remédios e vitaminas, mas nada conseguia evitar o definhamento da alma. Ela só queria saber de dormir. E dormia o tempo todo.

Certo dia, no entanto, foi despertada pelo cheiro de terra úmida. Não abriu os olhos. Teve medo. Mexeu os braços e tentou rolar sobre o próprio corpo. Não conseguiu. Estava encerrada num lugar abafado e estreito. Inflou as narinas e ao cheiro de terra úmida somou-se o de uma flor conhecida de outros carnavais. Decidiu não abrir os olhos, porque sabia que, fazendo-o, não compreenderia os motivos para mais uma, entre todas, fatalidade que a atingira sem que pudesse escolher.

Aspirou profundamente o cheiro da pétala que se alojara rente à narina esquerda e pensou a quantos velórios e enterros havia ido por educação. Viver, para ela, não fora outra coisa senão uma obrigação árdua e insuportável.

Um erro fatal a encerrara numa caixa, mas lhe trouxera de volta o elo que se quebrara em sua corrente. Poderia debater-se por socorro ou deixar-se conduzir para qualquer lugar distante de tudo aquilo que sempre lhe parecera tão cansativo.

O ar tornou-se opresso e o cheiro, de tão intenso, materializou-se acima de seu corpo. Como um músculo nervoso, pulsante, transgressor. Ergueu a mão e quase pôde tocá-lo. E assim ficou, enquanto a consciência se lhe escapava devagar, devagar, com a mão estendida no ar.

Sorriu e sua boca tinha a beleza da flor dos mortos.

Deixou-se levar.


À guisa de ilustração: consta do acervo de casos de determinado cemitério que, certa noite, um vigia foi surpreendido por movimentação estranha dentro de uma tumba recém-fechada. Assustado, chamou os responsáveis que, desejando tranquilizá-lo, abriram a tumba e lá encontraram um caixão semiaberto e, dentro dele, a morta em decomposição, virada de lado, em pose absolutamente diversa daquela em que se encontrava quando foi sepultada. A família não foi Localizada, tampouco aquele que declarou o óbito.

mariza lourenço

[imagem de Marcus]

11 comentários:

  1. Bravo! Minha anosmia está se sentindo vingada e... feliz da vida!

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  2. QUE MEDO! Enterrada Viva. O emparedado.

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  3. Amplamente espetacular em fundo e forma, Mariza!

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  4. Asfixiante e intenso. Em seus textos o feminino é quase palpável. Forte e muito, muito bonito. Parabéns!

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  5. caríssimos,

    perdoem a ausência de agradecimentos aos generosos comentários e leitura de meus textos. como costuma dizer uma grande amiga: ando 'apertada' de costura, sem tempo pra nada. mas agradeço de coração a generosidade das palavras.
    beijos.

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  6. Estamos sempre nessa corrida, não é Mariza? Mas, sim, você merece cada palavra e muitas mais!

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