sexta-feira, 14 de setembro de 2012

sobre como estar deserto



SOBRE COMO ESTAR DESERTO

I
Em modo mudo é impossível
a emboscada - anestesia
de predador e presa

O neutro
Nem bom, nem mau:
seca

II
No ventre, o excesso
de números, símbolos sem calor,
espessura e trama
das letras

(numerais espalhados sobre eras de gelo
expressando intransponíveis léguas
dali ao fundo, ao topo,
datas, contas, relatórios
de perdas)

Por acaso e traição da luz
o olhar recai  sobre a tela
do celular:

à semelhança de insetos em fuga
fragmenta-se o reflexo
em mil pedaços de dúvida
elétrons de nadas

III
Procuram-se outros prisioneiros
de estações em branco

para o alerta:

durante as migrações
crocodilos devoram os tolos
perdidos
da manada.



ALBERTO BRESCIANI

Imagem: O Lago da Meia Lua, de Michel Pochet



11 comentários:

  1. Como sempre.... sensível, bjs Zuzu

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  2. Como é bom ler o que escreves...
    Sensibilidade é com você mesmo! Parabéns!

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  3. A mim me parece uma perfeita descrição do período de seca em Brasília, com grande realismo e sensibilidade.
    Mereaim.

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  4. Como é difícil a aridez da comunicação fácil quando é difícil...
    Não é?
    Obrigada pelo interessante poema.

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  5. afinal, poeta, somos todos tolos prisioneiros de alguma coisa perdida entre o deserto e a dor.
    adorei. lindo, lindo poema.

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    1. Existem oásis, não Mariza? Uma palavra cai como chuva!

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