segunda-feira, 30 de julho de 2012

cordel 38


(Andy Warhol. Gun, c. 1982)
Veja só o que acontece
Por carência de atenção
Ou quem sabe talvez seja
Por problema de audição
De uma forma ou de outra
O final é confusão.

Certa vez me ofereceu
Umas calças um aí
Trinta e oito era o tamanho
Mas assim foi que eu ouvi:
- Quer comprar um trinta e oito?
Me assustei até tremi.

- E por que eu compraria?
Você acha que preciso?
- Sim eu acho mas entendo
Se você tá indeciso

Respondeu tranquilamente
Até mesmo com sorriso.

Pareceu-me a frieza
De um terrível assassino
Tive medo pois com isso
Certamente não afino
No entanto curioso
Quis saber mais do menino:

- E você já fez o uso?
Perguntei na cara dura
- Eu tentei mas não serviu
Respondeu com voz tão pura
Como pode ser tão frio?
Pensei sobre a criatura.

- Na verdade me serviu
No entanto não gostei

Deve ser profissional
Num instante já pensei
Como há mal nesse mundo
Lá no fundo lamentei.

Cada frase que eu dizia
A resposta confirmava
Uma calça ele vendia
Uma arma eu escutava
E a frieza do sujeito
Mais e mais me apavorava.

E depois ainda ouvi:
- Cê não quer ficar com ela?
Não gostando você sabe
Moro aqui nessa viela

Fiz imagem do objeto
Eu lustrando com flanela.

Ia quase interessando
A comprar a tal pistola
Quando então ele falou:
- Bom agora vou pra escola
Que ladrão será que é esse
Que a regra não viola?

Ou talvez seja o contrário
Ao invés de estudar
Deve ir lá na escola
Pra roubar ou pra matar
Deve ter mais uma arma
Além dessa a me ofertar.

E diante da tragédia
Que esboçava acontecer
Arrumei uma coragem
Resolvi interceder
Se ficasse ali parado
Muita gente ia sofrer.

E no gesto corajoso
Na atitude muito audaz
Falei com autoridade:
- Ouça aqui oh meu rapaz
Matar gente é errado
Ora isso não se faz.


O rapaz franziu a testa
Gaguejou olhou de lado
Um semblante esquisito
Uma cara de assustado
Parecia bem confuso
Parecia atordoado.

Na iminência do triunfo
Em silêncio festejei
Já cantando a vitória
O discurso preparei
Mas o moço interrompendo
Bruscamente disse: - Ei.

Uma calça te ofereço
Pra pegar ou pra largar
Nem me disse o que pensava
Se queria ou não comprar
E agora vem com essa
Um assunto de matar?


O rapaz virou as costas
Esse nunca mais eu vi
Só mais tarde fui saber
Da pechincha que perdi
Duas calças baratinhas
Uma Levi’s outra Lee.

13 comentários:

  1. Muito bacana, Vagner! Esse problema de audição é recorrente!

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    1. Obrigado, Alberto! E o de atenção também! :)

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  2. Me perdi nas redondilhas... Parabéns!

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    1. Salve, Zarfeg! Logo publicaremos mais cordeis. Obrigado!

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  3. Me amarro em cordel! Parabéns, Vagner, muito maneiro! (o Alberto tem razão, mouco é o que não falta na praça, tanto quanto assaltos).

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    1. Angélica! Um prazer receber sua visita. Obrigado!

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  4. Gostei muito, muito mesmo. Adoro o ritmo dos versos do cordel. Parabéns!

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    1. Ana Maria! Obrigado! Aguardamos mais visitas suas.

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  5. adorei, Vagner. invejo os bons cordelistas. e você é dos bons. esse cordel, especialmente, é excelente, com destaque para duas falhas humanas, ou mais se pensarmos direito, a da falta de atenção e ouvidos surdos a quase tudo o que nos rodeia. e a pressa que nos faz perder coisas que julgamos pequenas demais.
    um beijo por essa beleza.

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  6. Qualquer dia a gente faz uma cordel session por aqui, Mariza! Obrigado!

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  7. Muito bom, Vagner. É gostoso de ler, adoro o ritmo do cordel. Parabénas!

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    1. Basilina! Muito bom te encontrar por aqui. Obrigado e um abraço!

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