sexta-feira, 27 de julho de 2012

de confissões

DIÁRIO DA CHUVA

ontem.

chove muito e eu não penso em fazer mais nada além de continuar sentada nesta cadeira, num canto escuro do quarto.
meu pai morreu, mas deixou sua cadeira. ele sabia das coisas.
esta cadeira é um ninho.
tenho medo de tempestades, mas a escuridão é velha companheira. gosto dela.
desde a barriga de minha mãe.
quando tenho medo, sinto raiva. uma raiva desordenada de tudo, sobretudo desta incompetência em lidar com meus pavores. quando fiz sete anos um bicho-papão enfiou-se debaixo da cama.
e nunca mais foi embora.
talvez esta seja uma boa hora para pensar nele e em sua ausência. embora o saiba presente do outro lado da porta. em maio é meu aniversário. o dele também. nosso inferno começa no mesmo dia.
e não tem data pra terminar.
chove ainda, mas é chuva mansa, de pouco barulho. o bicho-papão adormeceu sob a cama. do outro lado da porta, lá na sala, ele também dorme sobre o sofá.
como sempre.
de olhos abertos e sentada nesta cadeira, continuo acordada.
meu pai é que sabia das coisas.
esta cadeira é meu ninho.


mariza lourenço


[imagem de andrew atkinson]

5 comentários:

  1. A densidade dos seus textos, a forma que fala da natureza humana, sempre me deixou atento Mariza. Temos nossos refúgios. Certamente demarcados dentro de nós.

    Luciano Lopes

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  2. Isso não é talento. Isso é ter à mão a vida e a palavra entrelaçadas. Ou talvez talento seja isso (e para poucos).

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  3. Um poema, Mariza - de extrema delicadeza!

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  4. Massa, Mariza. Um dia lhe apresento meu boi da cara preta... Eles vão se entender, os bichinhos... Maximus!

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