sexta-feira, 10 de agosto de 2012

a senhora galinha e outros minicontos



A SENHORA GALINHA

Eram dez. Depois nove, sete, seis, quatro, três, duas, ela. A Senhora Galinha rogava clemência ao seu criador. Oferecia-lhe penas brancas, ovos em branco e ouro. A solidão infundia-lhe medo (criadores são terríveis juízes dos destinos)... Aves não choram, mas, a um segundo do bico do abutre, uma gota brilhava sobre o olho estático: a cabeça da Senhora Galinha no lixão.





INVEJA

Imaginava o outro no passado (isso diminuía sua culpa). Quem sabe o Titanic? Ele, o outro, naufragando com toda aquela certeza, aquela insuportável felicidade... “Bem feito!”, pensava, jogando a revista no chão.




DUPLO

Vendia ingressos. Perdia todos os espetáculos, mas sonhava com alturas. Um dia, em segredo, vestiu a fantasia e subiu ao trapézio. A velocidade do mergulho esfacelou as vértebras: um duplo mortal.






ESCARLATE

A cada recusa, nele enlouquecia o desejo. A violência da paixão arrancou o brinco e rasgou a blusa - enquanto a bala atravessava o próprio crânio e o cobria de vermelho-paixão.




TEORIA DA RELATIVIDADE

Dona Beta era gorda. Gordíssima. Usava vestidos longos e muito estampados, que, armando-se sobre a sua circunferência, davam a ela o aspecto de uma tenda de circo ambulante. Professor Campelo era baixo, branco feito papel, ombros estreitos, pulôver sob o paletó até no verão, o tipo de quem se costuma dizer que "morreu e se esqueceu de deitar". Sharon usava roupas de cores berrantes, apertadas, couro falso, lantejoulas, unhas postiças muito vermelhas, cabelos amarelos (embora fosse obrigada a fazer a barba duas vezes por dia). Adriana malhava, lipos no currículo, sabia da moda, comprava - e usava - toneladas de cremes, arrancava olhares de cobiça dos marombeiros na academia e achava Dona Beta, Professor Campelo e Sharon as piores e mais ridículas pessoas do mundo. Mas Dona Beta adorava e era adorada por seus netos, que a cobriam de carinhos; Professor Campelo galhardamente ganhou o prêmio Jabuti; Sharon estava casada com o Cabo Bento há dez anos e vivia muito feliz, obrigada. Adriana se olhava no espelho e não via nada, ninguém.


ALBERTO BRESCIANI







41 comentários:

  1. Fantástica a "Teoria da Relatividade"! Nada mais exato que, infelizmente, vemos crescer aos nossos redores!

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    1. Obrigado, Regilene, pela visita, a gentileza de sempre e a atenção sempre coberta de acerto!

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  2. que destreza, com poucas palavras um grande conto! Dos vários bem contados mini contos permita-me preferir o DUPLO. Parabéns!

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  3. A descrição dos personagens relativos é espetacular, o que pode ofuscar o genial fechamento. Muito Bom!

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    1. Klotz, mestre-amigo, sua opinião me honra! Obrigado!

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  4. ...lendo parecia que eu estava à espreita assistindo tudo, lamentando, torcendo... tão reais.
    muiito belos... e fico pensando:"Bem feito"(rsss), pq parei de escrever? gde abraço

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    1. Sônia, obrigado, cara amiga! Pois escreva, arrisque!

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  5. Adorei a sutiliza da Inveja. Beijos,

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    1. Zuzu, você sabe a sutileza da arte. Fico sempre feliz com a sua visita e a sua opinião! Obrigado!

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  6. Bravo!
    Todos maravilhosos.

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    1. Jairo, mestre do conto, isto é um prêmio! Obrigado!

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  7. Parabéns, Alberto!!
    Ótimos!!
    Abraço,
    José Antonio

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    1. José Antonio, obrigado pela visita, meu amigo!

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  8. Alberto, excelente seleção de minicontos. todos muito bons e cada um, à sua maneira, dando asas à reflexão. e à viagem, claro, ao fantástico universo dessas personagens encantadoras.
    um beijo, meu amigo.

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    1. Que bom, Mariza! Um comentário que fecha com chave de ouro! Clichê, mas verdade! rs

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  9. Como assim "fecha", Alberto? Ainda não falei! Quero ler mais de seus minicontos!

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  10. Adorei. Ri e me emocionei, além de sorrir. E sorrir é muito bom.
    Lirívia

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  11. Parabéns, Alberto. Gostei de todos, mas "A Teoria da Relatividade" é o meu preferido. Atualíssimo. Escreva sempre. Wilson Jabour

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    1. Obrigado, caríssimo Wilson! Não deixe de nos visitar!

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  12. Alberto, numa homenagem ao velho Albert, fiquei com a Teoria da Relatividade. Muito bom! Carlos Machado

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  13. Parabéns, Alberto!
    Mais um local para ficarmos de olho :)
    Beijo com carinho

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    1. Ludmila, que bacana! Obrigado por nos visitar!

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  14. Alberto,

    que grata surpresa!!
    Na verdade, não deveria me surpreender, pois sei que tanta arte não caberia somente em poemas!!!
    Parabéns pela precisão do emprego das palavras na descrição de sentimentos tão variados...
    Os mini-contos são pequenos apenas na forma, porque no conteúdo são enormes!!
    Escreva sempre!!
    Beijocas
    Malu

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    1. Ora, Maluzinha, que prazer encontrá-la! E a sua generosidade e gentileza mais do que artísticas! Muito obrigado!

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  15. Os contos estão primorosos, querido Alberto. Também eu tenho caminhado pelos mistérios da síntese em poemas de 140 toques. Gosto especialmente de DUPLO, um poema em prosa, de grande beleza plástica, esplendidamente pintado com as tintas da tragédia humana. Parabéns.

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    1. Amneres, muitíssimo obrigado, minha amiga poeta. Quero conhecer essa sua fase minimalista! Quem sabe minicrônicas também?

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  16. Todos muito bons (no meu singular entender), mas a Teoria da Relatividade é sensacional. Parece que "ganhou" por maioria, quase por unanimidade!! Parabéns!!!!
    Bernadette

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    1. Bernadette, que bom! Gosto muito quando você nos visita: uma visita muito bem-vinda, daquelas para quem se retira o relógio da parede!

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  17. Alberto,
    Adorei! Todos são ótimos.
    De cara com "a senhora galinha" me lembrei do momento, aos doze anos, que decidi não comer galinha, num ensaio para meus 15 anos de vegetarianismo - que agora é passado. Penso que a Bia vai sentir-se fortalecida quanto a decisão de não consumir frango - juro que não tenho nada com isso.
    Já a Teoria da Relatividade é ótima! - ainda bem que não gosto de malhar.
    Parabéns, Goretti

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    1. Goretti, malhando ou não, o seu espelho está repleto de qualidades e, claro, de elegância e estilo! Nós sabemos!

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  18. Alberto,
    Seus minicontos são flashes de pura literatura.
    Parabéns!
    Wilson Pereira

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